raça... só por
aquilo que encontrei quando entre: na sala do trono naquele
dia - disse Ned. - Aerys estava morto no chão, afogado no
próprio sangue. Seus crânios de dragão observavam das
paredes. Havia homens dos Lannister por toda parte. Jaime
trajava o manto branco da Guarda Real por cima da
armadura dourada. Ainda o vejo. Até a espada era dourada.
Estava sentado no Trono de Ferro, bem acima dos cavaleiros,
usando um elmo em forma de cabeça de leão. Como brilhava!
- Isto é bem sabido - protestou o rei.
- Eu ainda estava montado. Percorri todo o salão em silêncio,
entre as longas fileiras de crânios de dragão. De algum modo,
parecia que me observavam. Parei em frente ao trono,
olhando-o por baixo. Tinha a espada dourada pousada sobre
as pernas, com a lâmina vermelha do sangue do rei. Meus
homens começavam a encher a sala atrás de mim. Os de
Lannister afastaram-se. Nunca disse uma palavra. Olhei-o, ali
sentado no trono, e esperei. Por fim, Jaime soltou uma
gargalhada e se ergueu. Tirou o elmo e disse-me: "Nada tem a
temer, Stark. Estava apenas mantendo-o quente para o nosso
amigo Robert. Temo que não seja uma cadeira muito
confortável".
O rei atirou a cabeça para trás e rugiu. Suas gargalhadas
assustaram um bando de corvos que saltaram do meio da alta
grama castanha num frenético bater de asas.
- Pensa que devo desconfiar de Lannister porque se sentou no
meu trono por momentos? - voltou a sacudir-se de riso. -
Jaime não tinha mais de dezessete anos, Ned. Era pouco mais
que um rapaz.
- Rapaz ou homem, não tinha direito àquele trono.
- Talvez estivesse cansado - sugeriu Robert. - Matar reis é
trabalho pesado. Os deuses sabem que não há mais lugar
nenhum onde descansar o traseiro naquela maldita sala. E ele
falou a verdade: é uma cadeira brutalmente desconfortável.
De todas as maneiras - o rei abanou a cabeça. - Bem, agora
conheço o negro pecado de Jaime e o assunto pode ser
esquecido. Estou mortalmente farto de segredos,
questiúnculas e assuntos de Estado, Ned. É tudo tão
entediante como contar moedas. Vem, vamos cavalgar, você
costumava saber fazer isso. Quero voltar a sentir o vento nos
cabelos - voltou a pôr o cavalo em movimento e galopou sobre
o outeiro, fazendo saltar terra atrás de si.
Por um momento Ned não o seguiu. Tinha ficado sem
palavras e sentia-se cheio de uma grande sensação de
impotência. Uma vez mais perguntou a si próprio o que fazia
ali e qual o motivo de ter vindo. Não era nenhum Jon Arryn,
capaz de pôr freio à impetuosidade do rei e de lhe inculcar
sabedoria. Robert faria o que lhe apetecesse, como sempre
fizera, e nada do que Ned pudesse fazer ou dizer mudaria isso.
Seu lugar era em Winterfell. Seu lugar era com Catelyn, na
sua dor, e com Bran.
Mas um homem nem sempre podia estar no seu lugar.
Resignado, Eddard Stark bateu com as botas no cavalo e foi
atrás do rei.

Tyrion

O Norte parecia não ter fim.
Tyrion Lannister conhecia os mapas tão bem como qualquer
outra pessoa, mas uma quinzena no trilho irregular que
naquela região se passava pela estrada do rei bem incutira
nele a lição de que o mapa era uma coisa, mas o terreno, outra
bem diferente.
Tinham partido de Winterfell no mesmo dia que o rei, entre
toda a agitação da partida real, saindo ao som dos gritos dos
homens e do resfolegar dos cavalos, entre a algazarra das
carroças e os gemidos da enorme casa rolante da rainha,
enquanto uma neve ligeira caía ao redor. A estrada do rei
ficava logo à saída do castelo e da vila. Aí, os estandartes, as
carroças e as colunas de cavaleiros da guarda e cavaleiros
livres viraram para o sul, levando o tumulto com eles,
enquanto Tyrion virava para o norte com Benjen Stark e o
sobrinho.
Depois disso ficou mais frio, e muito mais silencioso.
À oeste da estrada estendiam-se colinas de sílex, cinzentas e
escarpadas, com altas torres de vigia erguidas nos seus cumes
rochosos. Para leste o terreno era mais baixo, achatando-se
até se transformar numa planície ondulada que se estendia
até onde a vista alcançava. Pontes de pedra transpunham rios
rápidos e estreitos, e pequenas chácaras espalhavam-se em
anéis em torno de rastros com fortificações de madeira e
pedra. A estrada tinha muito tráfego, e à noite, para seu
conforto, podia-se encontrar rudes estalagens.
Mas após três dias de viagem de Winterfell, as terras de
cultivo deram lugar à densa floresta, e a estrada do rei
transformou-se num lugar solitário. As colinas de sílex
tornavam-se mais altas e lervagens a cada milha, até se terem
transformado em montanhas pelo quinto dia, gigantes frios,
azuis-acinzentados, com promontórios irregulares e neve
sobre os ombros. Quando o vento soprava do norte, longas
plumas de cristais de gelo voavam dos picos mais altos como
se fossem estandartes.
Com as montanhas a fazer às vezes de muro, a oeste, a
estrada desviava-se para nor-nordeste através da floresta,
uma mistura de carvalhos com sempre-verdes e sarças negras,
que parecia mais antiga e sombria que qualquer outra que
Tyrion tivesse visto. "Mata de lobos" cham